Imagine o debate de domingo entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) montado em Lego, bloco por bloco, como a Band o entregou. Agora imagine a audiência desmontando tudo para guardar no bolso só as peças que se encaixam no discurso que já pratica, a favor do próprio candidato e contra o adversário. O resto vai para debaixo do sofá.
Um político me descreveu a primeira aparição dos candidatos no mesmo ambiente televisionado como a de dois homens portando caixas de ferramentas, o que já diz muito, porque Lego se monta sem nenhuma. Um dizia “eu tenho uma chave de fenda”, o outro respondia “pois eu tenho um alicate”, e então o primeiro sacava a chave inglesa, o rival, a trena, e assim por diante. O que se viu ali foi um autodebate de dois presidenciáveis fluentes no idioma mêmico que funciona algoritmicamente para os próprios seguidores. Cada um ignorava o que dizia o concorrente para disparar frases nascidas para viver longe do contexto em que foram criadas, adotadas por uma família unida pelo conjunto de crenças que nega as da vizinhança do outro lado da rua.
A Band teve em São Paulo a maior audiência de um debate desde 2006, quando o mesmo Lula enfrentava o Alckmin que hoje é seu vice. O detalhe deveria bastar para sustentar a velha crença de que o duelo entre adversários termina no intervalo comercial e que, quando sobem os créditos finais, todos trocam piadinhas nos bastidores, longe dos olhos do público “enganado” pela rivalidade cenográfica. Mas a política virou reality e a realidade excede a tela e nos atinge com um golpe inesperado.
Eu mesmo fui atingido. Trabalho com política desde 2010, assessorando, roteirizando, participando de estratégias. Sou funcionário da cozinha, um lugar que destoa da experiência do cliente sentado à mesa, que prefere não ver como o prato é feito e se limita a ser servido por quem prepara o cardápio conforme o gosto dele. Um amigo suspendeu o contato comigo porque trabalhei para alguém que, nas palavras dele, representa um menu que não agrada seu paladar. Restaurante afora, uma tia justificou ao marido que votaria em determinado candidato para me ajudar, e com isso me complicou perante o meu tio, que passou mal no fim de semana em que descobriu que a esposa e os filhos votavam no candidato que ele abomina.
A ciência política chama de polarização afetiva o prato que tem alimentado a cólera do eleitor, um comensal que se move menos pelo que admira no próprio candidato do que pelo que detesta no adversário. Propostas são ingredientes dispensáveis nessa receita. Basta que o ataque confirme ao freguês que ele está no superlativo “lado certo da história”. A cozinha profissional trabalha para servir à clientela o que lhe pedem.
Unidos pelos contrários, os dois lados são partidários de igual ideologia da polarização. O debate de domingo terminou com a gritaria abafando o boa-noite dos mediadores.
Durante a transmissão, numa manifestação o mais distante possível da quentura dos sentimentos políticos que eu, profissional do meio, reservo para a intimidade da cabine, escrevi que a eleição presidencial brasileira é uma administração da nossa selvageria, longe de ser exemplo de civilidade. Não à toa, chamamos de cortes os trechos que se sobrepõem à inteireza do debate. Na tela da Band, foram feitos com lâminas tão afiadas que o sangue chegou fresco à mesa aqui de casa.