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As redes estão mesmo sociais?
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57 minutos agoon

Como relações que nascem, crescem e podem nunca sair da tela mudam nossa humanidade
Duas pessoas podem se falar todos os dias durante anos, conhecer segredos uma da outra e nunca ter ocupado a mesma sala. Parando para pensar, isso já nem parece estranho. E diz alguma coisa sobre o que passamos a chamar de relação.
Há amizades que nascem na internet, amadurecem ali e podem permanecer durante anos sem que o encontro presencial seja entendido como a etapa que falta. A pesquisa já tem até um nome para elas: online-only friendships, amizades que existem exclusivamente em ambientes digitais.
Em um estudo com 630 adolescentes, 38,3% disseram ter pelo menos um amigo que nunca haviam encontrado pessoalmente. Anos depois, o fenômeno continua sendo investigado como uma forma própria de vínculo, inclusive pelo apoio, pela intimidade e pelos riscos que pode produzir.
A existência dessa categoria talvez ensine uma primeira coisa. Uma relação que não chega ao presencial não precisa ser uma relação interrompida no meio do caminho. Para muita gente, ela já chegou aonde tinha de chegar.
E isso é relativamente novo.
Quando a rede era a nossa rede
Quem viveu o Orkut provavelmente se lembra de uma experiência diferente daquela oferecida pelas redes atuais.
O colega da escola estava lá. O primo, a pessoa com quem você havia ficado, o amigo que tinha mudado de cidade. Havia desconhecidos, claro, sobretudo nas comunidades, mas boa parte da graça vinha de reencontrar na tela pessoas e relações que já faziam parte da vida.
Não é apenas memória afetiva. Em um artigo de 2007 que se tornou referência no estudo das redes sociais, danah boyd e Nicole Ellison observaram que aquelas plataformas se distinguiam menos por permitir conhecer estranhos do que por tornar visíveis nossas próprias conexões. Na maior parte delas, as pessoas se comunicavam principalmente com integrantes de sua rede social ampliada, muitas vezes ligados por algum elemento que já existia fora da internet.
Isso ajuda a entender até o nome.
A “rede” era composta pelas relações.
Hoje é possível abrir uma conta sem conhecer praticamente ninguém e, minutos depois, estar cercado por centenas de pessoas. O sistema encontra vídeos, assuntos e desconhecidos antes mesmo de construirmos uma rede de contatos.
Alguns desaparecem depois de quinze segundos. Outros aparecem tantas vezes que começam a parecer conhecidos. Sabemos onde moram, reconhecemos a cozinha, sabemos o nome dos filhos e acompanhamos um namoro até o fim sem que aquelas pessoas saibam que existimos.
Em alguns casos, essa familiaridade deixa de ser unilateral. Vem uma mensagem, depois outra, surge uma rotina, alguma confiança. Não houve escola, trabalho ou amigo em comum. O ponto de encontro foi a própria plataforma.
A rede, portanto, já não serve apenas para representar relações. Ela também passou a produzi-las.
Existe um tipo de intimidade próprio da tela
A ausência do encontro físico pode parecer uma desvantagem óbvia para conhecer alguém. Há décadas, porém, pesquisadores perceberam que a história é mais complicada.
O psicólogo Joseph Walther formulou nos anos 1990 o chamado modelo da comunicação “hiperpessoal”. A ideia, que continuou recebendo suporte em pesquisas posteriores, é que determinadas características da comunicação mediada podem favorecer relações surpreendentemente íntimas.
Uma mensagem não precisa ser respondida imediatamente. É possível pensar, apagar, reescrever, escolher como contar alguma coisa. Quem recebe também trabalha com uma quantidade menor de informações e pode preencher lacunas sobre o outro.
Isso pode tornar a relação mais editada. Também pode facilitar coisas que presencialmente seriam muito mais difíceis de dizer.
Experimentos já encontraram, por exemplo, mais perguntas pessoais e revelação de informações íntimas em algumas formas de comunicação mediada por computador, fatores que por sua vez favoreceram a atração entre os participantes.
A tela, então, não serve apenas para esconder.
Às vezes ela dá coragem.
Uma pessoa tímida pode ter tempo para construir uma resposta. Alguém que vive numa cidade pequena encontra a milhares de quilômetros outra pessoa com a mesma experiência. Certas diferenças sociais perdem visibilidade. Um assunto que causaria constrangimento diante de um rosto pode aparecer numa conversa às duas da manhã.
Um estudo de 2024 com jovens adultos encontrou algo nessa direção: participantes com maior ansiedade social relataram sentir mais confiança, conforto e abertura nas interações online. No conjunto, porém, os encontros presenciais ainda eram percebidos como mais significativos e íntimos.
Talvez esse resultado seja mais interessante justamente porque não escolhe um vencedor.
A tela não produz uma versão inferior da intimidade. Produz condições diferentes para que ela aconteça.
O que só descobrimos quando alguém ocupa espaço
Há, porém, uma informação sobre os outros que não depende do que eles contam.
Você descobre como alguém trata um garçom. Quanto se atrasa. O que faz quando não há assunto. Como reage quando está cansado. Se perde a paciência numa fila. Se ouve. Se interrompe. Se fica desconfortável quando alguém pensa diferente.
Ninguém precisou decidir revelar essas coisas.
Elas escapam.
A convivência presencial contém uma grande quantidade desse material involuntário. Na comunicação digital, parte dele pode ser administrada. Escolhemos quando responder, qual fotografia mostrar, se ligaremos a câmera e quais pedaços do dia entrarão naquela relação.
Isso não significa necessariamente mentira.
Pesquisas sobre apresentação pessoal online mostram algo mais sutil. Quando dispomos de menos pistas sobre uma pessoa, aprendemos a extrair informação das pistas que sobraram: o jeito de escrever, o tempo de resposta, pequenos detalhes, aquilo que outras pessoas dizem. Também tendemos a dar mais valor a informações que parecem menos controladas pelo próprio indivíduo.
Nós nos adaptamos à falta do corpo.
Mas não o substituímos perfeitamente.
Um estudo que comparou amizades online e presenciais encontrou mais profundidade, interdependência e compromisso nas amizades presenciais. Só que havia um detalhe revelador: conforme o tempo de amizade aumentava, as diferenças entre os dois tipos diminuíam.
O tempo fazia parte do trabalho que normalmente atribuímos à presença.
É aqui que aparece uma das coisas mais estranhas que aprendemos sobre essas relações.
Podemos saber os segredos mais profundos de uma pessoa e nunca descobrir como ela se comporta numa fila.
Qual das duas informações significa conhecê-la melhor?
A pergunta provavelmente não tem uma resposta universal. Mas muda a maneira como podemos pensar a intimidade. Conhecer alguém não é uma quantidade única que vai de pouco a muito. Podemos conhecer profundamente certas dimensões de uma pessoa e permanecer quase estrangeiros diante de outras.
Talvez “virtual” seja uma palavra velha
Durante muito tempo, “amizade virtual” pareceu uma expressão perfeitamente normal.
Hoje ela começa a carregar um problema.
Virtual em oposição a quê?
Uma discussão com uma pessoa que nunca vimos presencialmente pode estragar nosso dia. Podemos sentir carinho, ciúme, gratidão, raiva ou saudade. Uma relação que existiu apenas por mensagens pode terminar e deixar um luto que acompanha alguém no trabalho, no almoço e na cama.
A relação não é presencial.
O afeto não sabe disso.
A pesquisa também foi abandonando a velha pergunta sobre se relações online podem ser “reais”. O interesse passou para perguntas mais específicas: que qualidade têm esses vínculos, que tipo de apoio fornecem, como se diferenciam das relações presenciais e para quem podem funcionar de maneiras distintas.
Essa mudança é importante porque desloca o problema.
O que perdemos quando perguntamos apenas se uma amizade online é verdadeira é justamente a oportunidade de descobrir como ela é verdadeira.
As redes estão mesmo sociais?
“Rede social” hoje serve para coisas muito diferentes. Conversamos com amigos, acompanhamos desconhecidos, criamos familiaridade com pessoas que não sabem que existimos e, no meio disso, estabelecemos relações que podem durar anos sem produzir um único encontro presencial.
A expressão permaneceu enquanto a experiência mudou.
As primeiras redes sociais foram construídas principalmente sobre relações que já existiam. As atuais também criam condições para relações que só existem porque a plataforma colocou duas pessoas no mesmo caminho. E algumas delas permanecem inteiramente ali.
Isso muda uma ideia muito antiga sobre intimidade. Conhecer alguém já não exige necessariamente compartilhar espaço. Conversa, repetição, confiança, memória e tempo conseguem produzir proximidade mesmo quando duas pessoas nunca estiveram frente a frente.
A presença, porém, continua oferecendo um tipo particular de conhecimento. É nela que encontramos aquilo que o outro não preparou para mostrar: a impaciência, o silêncio, o jeito de tratar alguém, o comportamento quando a conversa acaba, o corpo ocupando um lugar que não pode ser editado antes de chegar até nós.
Por isso, relações exclusivamente online não são relações pela metade. Elas apenas nos apresentam uma forma de conhecer alguém que não coincide inteiramente com a convivência presencial.
As redes continuam sendo sociais. Só que o significado de estar com alguém ficou maior do que a presença.
Hoje podemos carregar uma pessoa na nossa vida por anos sem jamais ter dividido com ela o mesmo espaço.
E isso já é uma mudança enorme no que entendemos por convivência.